Buckley-Vidal.

Da série de debates de 68 que ficou conhecida como Buckley-Vidal, dois intelectuais esgrimem argumentos numa elevação imbuída de um charme absolutamente irresistível. William Buckley, conservador, e Gore Vidal, (mais do que) liberal, tiraram a ABC da penúria e inauguraram o “comentário político” tornado espaço televisivo, cujo calibre raramente se voltou a repetir. Deliciosamente recomendado!

A Infância de Ivan

f4cac070314097677cc45ab1f6f4b2a1A primeira longa-metragem do realizador, com imediato reconhecimento internacional, é uma obra pungente e belíssima sobre a sofrida infância de Ivan, um rapaz com um ódio de morte ao dispositivo nazi – estamos em plena 2ª Grande Guerra – que lhe assassinou a mãe e a irmã, agindo a partir desse momento como frente de reconhecimento do exército soviético, suportando na pele um fardo demasiado pesado para um rapaz de tão tenra idade, alimentado por um sentimento de vingança que o mantém determinado e alerta nas suas dissimuladas investidas em território inimigo. Este será talvez um filme singular na filmografia de Tarkovsky, o estilo poético, a narrativa vincadamente não linear, que o viria a caracterizar nas películas seguintes está aqui mais ausente, embora exista sempre um símbolo, um ponto de apoio artístico transfigurante – a grafonola e o canto – sequências de sonho, e o desenho de planos absolutamente magistrais no grande ecrã. A respeito deste filme Bergman viria a dizer:

My discovery of Tarkovsky’s first film was like a miracle. Suddenly, I found myself standing at the door of a room the keys of which had, until then, never been given to me. It was a room I had always wanted to enter and where he was moving freely and fully at ease.

Também Sartre viria a defendê-lo, bem como os grandes Parajanov e Kieslowski, realizadores que viriam a ser influenciados por ele.

O Rolo Compressor e o Violino

b07985e62762c684f17e9e2b4dd2f1d1A primeira média-metragem deste excelso realizador onde se intui já o fascínio que a arte, musical neste caso, é capaz de produzir, e efectivamente operar e transformar, no espaço e tempo mundanos. A amizade que se estabelece entre um menino violinista e um operador de um rolo compressor é enlaçada na beleza daquele momento em que ambos se rendem à contemplação de algo singularmente elevado, o momento em que o menino toca para o operador ouvir. Já antes o operador se teria enternecido pelo pequeno violinista e o havia deixado conduzir o seu rolo compressor, num espírito paternal ao que o pequeno não ficou alheio. Com efeito, vive sozinho com a mãe e esta ligação à presença masculina, com a qual chega até a sonhar, é natural e compreensivelmente estimulante no quadro emocional de uma criança sensível à ternura do seu improvável ouvinte. Tanto o rolo compressor como o violino são postos em evidência em momentos distintos mas com importância semelhante. Se à partida um rolo compressor evoca uma disposição algo banal quando confrontado com a elevada potencialidade de um instrumento musical como o violino, na verdade é, para o pequeno violinista, motivo de tanta alegria como este último. Não existe um antagonismo entre estas duas artes que o senso comum tende a desequilibrar, são ambas parte integrante da riqueza da experiência vital coroada aqui pelo amor sentido entre estes dois desconhecidos, ligados pelo acaso mas confirmados pela beleza. Aquela beleza que Tarkovsky virá a expôr poeticamente com cada vez mais e mais longos momentos nas suas películas seguintes.

O Espelho

b0cf5e3a7624d2260f9bc50eca45c5f4Talvez a mais enigmática das obras tarkovskianas, O Espelho é um percurso poético pelas avenidas da memória, da infância, da guerra, da mãe, do pai, dos irmãos, da Rússia antiga e da Rússia moderna, da literatura, da espiritualidade, da vida, da morte, da fé, da razão, do ser.

A sequência não linear de imagens carregadas de simbologia parece equivaler a uma descarga não sequencial vinda directamente do inconsciente, embora Tarkovsky seguramente não concordasse com esta complexa ideia de uma narrativa visual imprevisível, já que alegadamente terá feito mais de 30 edições até chegar à obra que temos hoje, um reflexo da meticulosidade do cineasta em obter efeitos cinematográficos precisos, preocupado em passar uma mensagem específica.

De tal forma que não nos parece que o nome do personagem principal – Alyosha – tenha sido escolhido ao acaso. O personagem principal d’Os Irmãos Karamazov é precisamente Alyosha Karamazov, um personagem carregado de virtude e ingenuidade, um salvador do mundo e dos homens, fundamentalmente alegre, jovial e positivo, um contraste incrível com o Alyosha de Tarkovsky, taciturno, com dificuldade em exprimir-se e com reminiscências de um passado, e percurso historico-belico,  traumatizante.

E no entanto, acaba por não se adaptar à exigência militar, precisamente porque portador de uma subtil sensibilidade – afinal trata-se de um escritor – e de um olhar o mundo típico de quem é alimentado por uma vertigem pessoal que, apesar de traumática, ou talvez por causa disso, sobretudo na relação distante que manteve com a mãe – que por diversas vezes deixa adivinhar um secreto desejo de não o ter tido – é francamente profícua. O imaginário tarkovskiano é de uma riqueza inesgotável, pelo que apenas um visionamento não será suficiente para ter uma ideia mínima do horizonte poético pintado por este genial criador.

 

 

 

Solaris

45de3763ed505035d4a3cc03328e9af4Fantasticamente enigmático, Solaris é uma viagem que vira o inconsciente do avesso, confrontando-o com as suas próprias vertigens e estabelecendo um patamar de realidade com ambiguidade suficiente para pôr em causa a razão de ser da própria vida. O protagonista, um psicólogo astronauta, é chamado a investigar uma série de fenómenos que são reportados a partir da missão Solaris, uma estação espacial a orbitar o planeta do mesmo nome, onde o protagonista encontra um cenário desolador, partilhado por mais três cientistas, cada um com o seu historial de insanidade individual.

O planeta exerce uma influência de tal forma endémica que chega a extrair memórias dos seus ocupantes, as quais são materializadas em personagens “visitantes” que dialogam e interagem com os próprios ocupantes donde foram retiradas, como se as forças solarianas pretendessem aprender a dialogar, a traduzir algum tipo de linguagem e interacção com os exploradores terráqueos por forma a estabelecer algum tipo de entendimento e comunicação. No caso de Kris, o protagonista, é materializada a ex-mulher, que ter-se-ía suicidado no passado mas que ainda permaneceria viva na alma do psicólogo. Curiosamente, apesar de ser uma materialização, uma cópia, a existência da qual aquela entidade deriva é tão forte que ela em si mesma sente a inclinação para o suicídio, como se aquele exercício mais não fosse do que tornar visível, através de uma linguagem alienígena, a mesma contiguidade espaço-temporal que caracteriza a realidade terráquea, servindo-se desta como ponto comum de entendimento.

A influência do planeta na consequente materialização de entidades, que confrontam as consciências dos seus pares, leva os tripulantes da estação a uma crise de identidade que abala as noções mais fundamentais da razão de ser da vida, do amor, da humanidade, e de quão frágeis são os limites da realidade e da consciência, e do respectivo poder do inconsciente. Face a esta fragilidade, o homem pode experimentar o desespero da mente encurralada pelas suas próprias ilusões, ou abraçar a fé, aquela que preenche as aparentes lacunas de sentido naquela que é a simples e contínua linguagem universal do ser.

O Sacrifício

f71f721fb1d8033c5edb11127dad816fImpressionante obra-prima, a última, do fantástico universo tarkovskiano. O enredo parece simples: temos um jornalista/ensaísta – que outrora havia sido actor de teatro – que, face a uma ameaça nuclear apocalíptica e concomitante destruição da humanidade, faz um pacto com Deus – note-se que ele no início do filme quando questionado sobre a existência de Deus responde que não existe -, em que promete destruir a sua casa, afastar-se de todos e dissolver os laços familiares, para além de permanecer mudo para o resto dos seus dias, em troca da salvação do mundo, para que tudo volte a ser como era dantes. E de facto assim acontece, numa bela manhã o protagonista acorda e é como se nada se tivesse passado. E assim, cumpre o prometido.

Mas será precisamente neste último ponto, a manhã chega e é como se nada se tivesse passado, que a reflexão sobre o personagem pode abranger uma dimensão ainda mais profunda. Quando acorda, e os familiares perguntam por ele, é possível percebermos que estes interrogam-se se ele já havia tomado os comprimidos àquela hora, o que lança dúvidas sobre que espécie de sanidade mental o personagem demonstraria: e se o suposto holocausto nuclear tivesse ocorrido apenas como subproduto das suas vertigens interiores? Aliás em várias alturas do filme o personagem experimenta uma série de flashbacks, ou talvez delírios, onde tal ambiguidade já se deixa adivinhar.

Mas esta é só a ponta do véu para aquela que talvez seja a mais introspectiva das películas tarkovskianas. Filmado em fim de vida, consta que o realizador padecia de cancro já nesta altura e viria a falecer pouco depois da estreia, reflecte uma exploração do sentido, da entrega, do amor fingido, do amor real , da oferta – a real subtracção de si mesmo em prol do outro – do sacrifício. Existem várias cenas inundadas de uma carga simbólica que não se esgota na imagem, própria de uma poesia visual que se esforça por traduzir o indizível, e que assim, dado este âmbito supra-celeste, obriga a uma participação activa do espectador, que é interpelado e chamado a interpretar e reflectir sobre estes signos e a colher para si as chaves de leitura da realidade cénica, para as derramar sobre a realidade existencial.

Filmado com um sentido de estética sublime – habitual na obra do cineasta – esta é mais uma gigantesca catedral da meditação sobre o transcendente, as inquietações que assolam o homem que pensa, e a interminável busca da razão de ser da existência.

Recomenda-se, em absoluto.

 

 

Nostalgia

ced5459d3d14136e59c85f4d7a5f890aImperdível. Seguimos de perto um poeta russo acompanhado de uma intérprete italiana, cujo alvo de estudo é um compositor – também russo – que passou parte da sua vida numa belíssima região da Toscana, região que o poeta palmilha e onde descobre um personagem singular, Domenico, tido como louco por se ter fechado, a si e à sua família, dentro de casa durante 7 anos, alegadamente esperando o fim do mundo.

Por entre nostálgicos flashbacks cedo se torna evidente que a história destes dois personagens, o poeta e o louco, se encontra interligada. Também o poeta aparentemente terá um ambiente familiar problemático e, tal como o louco, toma consciência de que se terá fechado em si mesmo e à sua família de forma egoísta, de tal maneira que a certa altura ele próprio se olha ao espelho e em vez de ver o seu reflexo, vê o do louco, pedindo, em solilóquio e entredentes, perdão aos seus. Também a figura de um pastor-alemão que acompanha o louco, e, em sonhos, o poeta, acentua o grau de ligação entre os personagens. O elemento canino parece ser algo de caro a Tarkovsky, tendo estado já em “Stalker” igualmente presente.

A certa altura o louco reconhece que errou ao agir de forma egoísta. Ele pretendia salvar a sua família, mas na verdade é o mundo inteiro que precisa ser salvo, e para tal apresenta uma receita simples: percorrer as águas de Bagno Vignoni com uma vela na mão sem que esta se apague. E aqui reside uma das mais belas metáforas do filme. Inicialmente incrédulo, o poeta decide mesmo assim aceitar levar uma vela que o louco lhe oferece para o efeito, e é já na parte final que o poeta aceita o repto e enceta o percurso de salvação. É belíssima a ideia de que o que é necessário para salvar o mundo é proteger e prevenir que algo tão frágil e delicado como uma pequena chama se apague.

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O poeta, procurando proteger a frágil chama até ao fim.

E de facto a chama apaga-se a meio caminho, e o poeta volta atrás e começa de novo, sempre, como se ali se resumisse um percurso onde a salvação acontece na persistência em salvaguardar o essencial face à intempérie. Esta delicada chama pode simbolizar aquela ténue intuição através da qual surge a criação, aquela faísca que foi concedida ao homem para ser partilhada – porque uma só frágil chama é capaz de acender inúmeras outras sem se gastar – e para incendiar e inflamar aquele fogo que anima a consciência e afina a sensibilidade.

“Nostalgia” constitui um caudal riquíssimo de simbologia apresentada por entre algumas das mais deslumbrantes imagens cinematográficas. Como esta, em que o poeta vê enquadrada a casa onde cresceu, acompanhado do seu fiel canino, no contexto onde palmilhou o rasto de um colega criador passado:

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Recomenda-se, imenso.