Andrei Rublev

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Que grande privilégio poder rever esta obra magistral no grande ecrã!

Uma película disposta em quadros que retratam a vida do maior pintor de ícones russo, leva o espectador por uma ampla avenida de sensações, reflexões, imagens que exalam poesia, e religiosidade, por todos os poros. Não só é reflectido o património artístico do pintor mas o diálogo que a vida deste estabelece com a pátria russa num período conturbado da história, assolada por guerras e traições entre príncipes.

“Conhecerás a verdadeira essência de alguma coisa, se a conseguires nomear convenientemente”.

Esta parece ser uma regra para o conhecimento de qualquer coisa, mas se nos interrogamos acerca do Uno, do Belo, do Bom, então quão mais fundamental é o papel da arte como ponto de apoio sensível, uma porta de entrada, uma referência – um Nome – para o vago, o difuso, o invisível, o indizível, o inefável. E que papel imprescindível teve aqui Tarkovsky nesse empreendimento.

Todos os horários do ciclo Tarkovsky disponíveis aqui.

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Beira-mar

Um céu azul tingido de verde, uma cadeira virada para o mar, um cachecol aquecido por uma bebida quente e um livro no colo. As mãos levam-se à bebida, que se leva aos lábios, que se leva gosto e ao prazer da mistura entre o aconchego do cachecol e os raios de luz fria que beijam a face. Está assim pavimentada a avenida que aquece a alma, aquela que é percorrida com o livro que jaz no colo, fiel companheiro de desventuras. O livro, não o colo. Isto porque este cede facilmente ao sonho do primeiro, e o que fica não é quente, nem frio. É.

Paleta

Vi umas estrelas que libertavam pó sempre que se deixavam beijar pelo vento. De tal forma dançavam que um pequeno turbilhão nascia por entre os raios de luz reflectida, oferecido ao incauto sonhador acordado que pela noite deambula por uma qualquer rua secundária, perguntando-se se de facto estará acordado. Não se importa com a resposta, pois jamais vira tais matizes, tão ingenuamente cintilantes, animados por aquela ternura pessoal, cúmplice, de quem sente que sabe e sabe que sente o que sabe e sente que sabe o que sente. E parou, no meio daquela rua secundária sem ninguém, fechou os olhos, e agradeceu.