Solaris

45de3763ed505035d4a3cc03328e9af4Fantasticamente enigmático, Solaris é uma viagem que vira o inconsciente do avesso, confrontando-o com as suas próprias vertigens e estabelecendo um patamar de realidade com ambiguidade suficiente para pôr em causa a razão de ser da própria vida. O protagonista, um psicólogo astronauta, é chamado a investigar uma série de fenómenos que são reportados a partir da missão Solaris, uma estação espacial a orbitar o planeta do mesmo nome, onde o protagonista encontra um cenário desolador, partilhado por mais três cientistas, cada um com o seu historial de insanidade individual.

O planeta exerce uma influência de tal forma endémica que chega a extrair memórias dos seus ocupantes, as quais são materializadas em personagens “visitantes” que dialogam e interagem com os próprios ocupantes donde foram retiradas, como se as forças solarianas pretendessem aprender a dialogar, a traduzir algum tipo de linguagem e interacção com os exploradores terráqueos por forma a estabelecer algum tipo de entendimento e comunicação. No caso de Kris, o protagonista, é materializada a ex-mulher, que ter-se-ía suicidado no passado mas que ainda permaneceria viva na alma do psicólogo. Curiosamente, apesar de ser uma materialização, uma cópia, a existência da qual aquela entidade deriva é tão forte que ela em si mesma sente a inclinação para o suicídio, como se aquele exercício mais não fosse do que tornar visível, através de uma linguagem alienígena, a mesma contiguidade espaço-temporal que caracteriza a realidade terráquea, servindo-se desta como ponto comum de entendimento.

A influência do planeta na consequente materialização de entidades, que confrontam as consciências dos seus pares, leva os tripulantes da estação a uma crise de identidade que abala as noções mais fundamentais da razão de ser da vida, do amor, da humanidade, e de quão frágeis são os limites da realidade e da consciência, e do respectivo poder do inconsciente. Face a esta fragilidade, o homem pode experimentar o desespero da mente encurralada pelas suas próprias ilusões, ou abraçar a fé, aquela que preenche as aparentes lacunas de sentido naquela que é a simples e contínua linguagem universal do ser.

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