O Sacrifício

f71f721fb1d8033c5edb11127dad816fImpressionante obra-prima, a última, do fantástico universo tarkovskiano. O enredo parece simples: temos um jornalista/ensaísta – que outrora havia sido actor de teatro – que, face a uma ameaça nuclear apocalíptica e concomitante destruição da humanidade, faz um pacto com Deus – note-se que ele no início do filme quando questionado sobre a existência de Deus responde que não existe -, em que promete destruir a sua casa, afastar-se de todos e dissolver os laços familiares, para além de permanecer mudo para o resto dos seus dias, em troca da salvação do mundo, para que tudo volte a ser como era dantes. E de facto assim acontece, numa bela manhã o protagonista acorda e é como se nada se tivesse passado. E assim, cumpre o prometido.

Mas será precisamente neste último ponto, a manhã chega e é como se nada se tivesse passado, que a reflexão sobre o personagem pode abranger uma dimensão ainda mais profunda. Quando acorda, e os familiares perguntam por ele, é possível percebermos que estes interrogam-se se ele já havia tomado os comprimidos àquela hora, o que lança dúvidas sobre que espécie de sanidade mental o personagem demonstraria: e se o suposto holocausto nuclear tivesse ocorrido apenas como subproduto das suas vertigens interiores? Aliás em várias alturas do filme o personagem experimenta uma série de flashbacks, ou talvez delírios, onde tal ambiguidade já se deixa adivinhar.

Mas esta é só a ponta do véu para aquela que talvez seja a mais introspectiva das películas tarkovskianas. Filmado em fim de vida, consta que o realizador padecia de cancro já nesta altura e viria a falecer pouco depois da estreia, reflecte uma exploração do sentido, da entrega, do amor fingido, do amor real , da oferta – a real subtracção de si mesmo em prol do outro – do sacrifício. Existem várias cenas inundadas de uma carga simbólica que não se esgota na imagem, própria de uma poesia visual que se esforça por traduzir o indizível, e que assim, dado este âmbito supra-celeste, obriga a uma participação activa do espectador, que é interpelado e chamado a interpretar e reflectir sobre estes signos e a colher para si as chaves de leitura da realidade cénica, para as derramar sobre a realidade existencial.

Filmado com um sentido de estética sublime – habitual na obra do cineasta – esta é mais uma gigantesca catedral da meditação sobre o transcendente, as inquietações que assolam o homem que pensa, e a interminável busca da razão de ser da existência.

Recomenda-se, em absoluto.

 

 

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