Nostalgia

ced5459d3d14136e59c85f4d7a5f890aImperdível. Seguimos de perto um poeta russo acompanhado de uma intérprete italiana, cujo alvo de estudo é um compositor – também russo – que passou parte da sua vida numa belíssima região da Toscana, região que o poeta palmilha e onde descobre um personagem singular, Domenico, tido como louco por se ter fechado, a si e à sua família, dentro de casa durante 7 anos, alegadamente esperando o fim do mundo.

Por entre nostálgicos flashbacks cedo se torna evidente que a história destes dois personagens, o poeta e o louco, se encontra interligada. Também o poeta aparentemente terá um ambiente familiar problemático e, tal como o louco, toma consciência de que se terá fechado em si mesmo e à sua família de forma egoísta, de tal maneira que a certa altura ele próprio se olha ao espelho e em vez de ver o seu reflexo, vê o do louco, pedindo, em solilóquio e entredentes, perdão aos seus. Também a figura de um pastor-alemão que acompanha o louco, e, em sonhos, o poeta, acentua o grau de ligação entre os personagens. O elemento canino parece ser algo de caro a Tarkovsky, tendo estado já em “Stalker” igualmente presente.

A certa altura o louco reconhece que errou ao agir de forma egoísta. Ele pretendia salvar a sua família, mas na verdade é o mundo inteiro que precisa ser salvo, e para tal apresenta uma receita simples: percorrer as águas de Bagno Vignoni com uma vela na mão sem que esta se apague. E aqui reside uma das mais belas metáforas do filme. Inicialmente incrédulo, o poeta decide mesmo assim aceitar levar uma vela que o louco lhe oferece para o efeito, e é já na parte final que o poeta aceita o repto e enceta o percurso de salvação. É belíssima a ideia de que o que é necessário para salvar o mundo é proteger e prevenir que algo tão frágil e delicado como uma pequena chama se apague.

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O poeta, procurando proteger a frágil chama até ao fim.

E de facto a chama apaga-se a meio caminho, e o poeta volta atrás e começa de novo, sempre, como se ali se resumisse um percurso onde a salvação acontece na persistência em salvaguardar o essencial face à intempérie. Esta delicada chama pode simbolizar aquela ténue intuição através da qual surge a criação, aquela faísca que foi concedida ao homem para ser partilhada – porque uma só frágil chama é capaz de acender inúmeras outras sem se gastar – e para incendiar e inflamar aquele fogo que anima a consciência e afina a sensibilidade.

“Nostalgia” constitui um caudal riquíssimo de simbologia apresentada por entre algumas das mais deslumbrantes imagens cinematográficas. Como esta, em que o poeta vê enquadrada a casa onde cresceu, acompanhado do seu fiel canino, no contexto onde palmilhou o rasto de um colega criador passado:

nostalghia

Recomenda-se, imenso.

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